quinta-feira, 29 de outubro de 2009

emmanoel cardoso
Nunca fui afeito a dramatizações, nem sempre fui seco por dentro, e sim vazio por rasos amores. Talvez fosse a flâmula de um desejo ardente, escondido, perene, a embriagar as minhas certezas que mudavam meus planos e todo o sentimento grandiloquente tornava-se marola a empurrar conchas perdidas do mar à mão vazia de um trovador errante.

Quem dera fosse coisas de gênio, como dizem os mais caducos, quiçá nunca me adequei às minhas próprias finuras, jamais me fartei de beijos e caricias rogada a São-sei-lá. Não tinha motivos para reflexões profundas, não via senão o ponteiro das horas girando e em segundos meu senso de amabilidade e afeto se tornavam turvos; como o passar dos dias para as noites. Não me magoava, acreditei que assim se sucediam aos outros, como se todos fôssemos feitos daquilo que havia presente, o intervalo entre o beijo e o abraço, a mão dentre as coxas e o grito de gozo final. Tolo engano! Fui sempre oposto, nem me dei conta que eram os atos que ditavam os gostos e aflições alheias. Minhas palavras eram pelicas, mas os gestos eram crus e ralos. Fel que azeda boca de doente.

Magoar era verbo presente. Do passado não havia senão nódoas; manchas suaves e sublimes que se desmanchavam sem que desse por conta. Não era por minha culpa, foram as coisas todas que não se inclinaram ao meu modo insensato e ingênuo de abraçá-las. Queria tudo hoje, amanhã desejava somente uma parte ou talvez nada, nem sei. O fato é que o mundo continuava ali, girando ao meu redor, criando expectativas daquilo que ainda nem havia notado; cobranças mudas aos meus ouvidos surdos.

É que estando em meio ao furor de toda e qualquer novidade, quando a chama da vela ainda acesa aumentava, crispando-se até não haver mais base que a sustentasse, corria e catava a luz mais próxima, um jazigo talvez, só pra não ter que estar horas sem prumo. Ficar olhando o teto a noite inteirinha, pensando na corja de gente que se quer imaginava ter um homem chocado, agarrado ao descaso, a arquitetar frases perfeitas que não brotavam nas horas próprias.

Àqueles todos que se faziam próximos, o amargo meu da solidão foi sarcasmo, cansaço de me repetir, mostrar-me absorto, por não ter que dar-lhes motivos que explicassem os meus planos. Estava mesmo fadado ao pecado do abandono...

Tinha cá dentro um desejo ardente, pulsante de possuir todas as coisas de uma só vez, de mastigá-las e cuspi-las em sumo mascado, triturado, fatigado das dores mordentes. Era pra ter prumo, cadência de ritimista, mas não; era descompassado, o pato feio que brincava no escuro pra não ter de olhar no espelho da candura.

Prendia-me ao futuro e recordava do passado como se o tempo pudesse amarrá-los. Pra que a dor fosse mais breve, já que teria de senti-la e amargá-la profundamente, brincava e não contava as memórias remanescentes, era uma dor passada, soterrada em desejo.
Continua... ( Não sei quando e nem onde).

2 comentários:

Mônica disse...

muito bom teu texto, Emmanoel,aguardo a sequência... Cheirinho! MÔNICA(ÍNDIA)

Demócrito disse...

Não se fazem mais poetas como no futuro... Parabéns, adoro a forma com que usa as palavras é completamente seu, muito massa, bom pra caralho... heheheeh